Filosofia, ética, instituições e tecnologia diante de um século capaz de transformar a própria condição humana

Por Thiago Ermano Jorge *

Quando pensamos nos próximos 100 anos, normalmente começamos pela tecnologia. Inteligência Artificial, biotecnologia, novos materiais, engenharia genética, robótica, longevidade, novas fontes de energia e exploração espacial já indicam que estamos entrando em uma etapa histórica diferente.

Mas talvez a pergunta central não seja apenas o que seremos capazes de construir. Antes disso, precisamos perguntar que civilização queremos construir com aquilo que seremos capazes de fazer.

Estamos vivendo um momento tecno: a tecnologia deixa de ser apenas ferramenta e passa a interferir diretamente na forma como pensamos, produzimos, nos relacionamos, tomamos decisões e até compreendemos a própria condição humana. Essa mudança não é apenas econômica. É civilizatória.

Três matrizes que ainda organizam o presente

Grande parte da formação da civilização ocidental pode ser compreendida a partir do encontro de três grandes matrizes históricas. Simplificando uma história muito mais complexa, cada uma delas respondeu a uma pergunta fundamental:

  • A Grécia: como devemos pensar? A filosofia grega consolidou o valor da razão, da argumentação, da investigação e da busca pela verdade;
  • O Cristianismo: qual é o valor da pessoa? A tradição cristã ajudou a colocar dignidade, responsabilidade moral, consciência e cuidado com o outro no centro da experiência social; e
  • Roma: como organizar a sociedade e o poder? O legado romano estruturou Direito, administração, cidadania, contratos, instituições e mecanismos de organização do poder.

Essas três perguntas continuam abertas. O que mudou foi a escala. Agora teremos de respondê-las diante de máquinas que aprendem, sistemas que tomam decisões, biotecnologias capazes de alterar organismos e estruturas econômicas que atravessam fronteiras em segundos.

Pensar continuará sendo revolucionário

A contribuição grega para o futuro, talvez, seja justamente a mais antiga: aprender a formular boas perguntas. Durante séculos, informação foi escassa. No próximo século, provavelmente enfrentaremos o problema inverso.

Máquinas produzirão textos, hipóteses, diagnósticos, simulações e estratégias em escala extraordinária. Nesse ambiente, o diferencial humano não estará apenas em possuir informação, mas em desenvolver discernimento para compreender contexto, distinguir evidência de ruído e decidir o que realmente merece ser investigado.

Quanto mais inteligência artificial produzirmos, mais precisaremos desenvolver inteligência crítica humana. A filosofia deixa de ser apenas uma herança cultural e volta a ser infraestrutura de sobrevivência intelectual.

Nem tudo o que pudermos fazer, deverá ser feito

O segundo desafio será ético. A humanidade começa a adquirir capacidade crescente para editar genes, criar sistemas autônomos, prolongar funções biológicas, manipular grandes volumes de dados e conhecer comportamentos individuais e coletivos em profundidade inédita.

A ciência perguntará: é possível? A inovação perguntará: é viável? O mercado perguntará: existe demanda? Mas uma civilização precisa fazer outra pergunta: devemos fazer?

Quanto maior nossa capacidade tecnológica, maior será nossa responsabilidade sobre suas consequências. Privacidade, autonomia, dignidade, liberdade e direito à diferença deixarão de ser apenas temas jurídicos ou filosóficos. Serão elementos concretos do desenho tecnológico das sociedades.

Instituições terão de alcançar a velocidade da tecnologia

Roma nos deixou outra lição essencial: boas ideias precisam tornar-se instituições. Princípios precisam ser transformados em regras, direitos, responsabilidades, procedimentos e mecanismos capazes de limitar o poder.

Esse talvez seja um dos maiores desafios do século XXI. A tecnologia avança em ciclos de meses; instituições frequentemente avançam em ciclos de décadas. Inteligência Artificial, biotecnologia, genética, dados e sistemas autônomos já produzem perguntas que o Direito ainda começa a organizar.

Quem responde por uma decisão automatizada? Quem controla os dados de uma pessoa? Quem governa tecnologias capazes de alterar organismos ou ecossistemas? Como proteger inovação sem concentrar conhecimento e poder? Como regular sem impedir o desenvolvimento científico?

Estamos, novamente, diante de uma questão romana: como organizar o poder?

A tecnociência como quarto pilar

Aos três grandes pilares históricos acrescentamos hoje uma força de outra natureza: a tecnociência. Pela primeira vez, uma civilização começa a adquirir capacidade sistemática de modificar não apenas seu ambiente, mas também sua própria biologia e sua inteligência.

Inteligência Artificial, biotecnologia, agricultura avançada, novos materiais, neurotecnologia e engenharia genética não são apenas novos setores econômicos. São tecnologias capazes de reorganizar sociedades inteiras.

E tecnologia não possui destino próprio. Ela amplifica a sociedade que a controla. Pode ampliar conhecimento ou desinformação; distribuir oportunidades ou concentrar poder; reduzir sofrimento ou criar novas formas de desigualdade.

Por isso, inovação sem governança deixa de ser apenas uma questão econômica. Torna-se uma questão civilizatória.

O perfil humano dos próximos 100 anos

Nesse ambiente, o profissional e o líder das próximas décadas provavelmente terão um perfil diferente. Não será suficiente dominar apenas uma disciplina, porque os problemas mais importantes estarão justamente nas fronteiras entre áreas diferentes: ciência e mercado, tecnologia e Direito, biologia e computação, economia e sustentabilidade, universidades, empresas, governos e sociedade.

Precisaremos de integradores de sistemas e de mundos. Pessoas capazes de compreender ciência sem abandonar a dimensão humana; utilizar tecnologia sem desprezar a ética; inovar sem destruir instituições; e pensar economicamente sem ignorar as próximas gerações.

São os arquitetos de futuros: profissionais capazes de construir pontes entre especialidades e transformar conhecimento fragmentado em projetos, instituições e soluções aplicáveis.

Uma arquitetura para o próximo século

Se traduzirmos essas heranças históricas em funções para o futuro, chegamos a uma arquitetura civilizatória que combina cinco dimensões:

  • Razão: capacidade de investigar, argumentar, produzir conhecimento e buscar a verdade;
  • Dignidade: reconhecimento do valor da pessoa e dos limites morais do poder;
  • Instituições: regras, responsabilidades e mecanismos capazes de organizar e limitar o poder;
  • Tecnologia: capacidade de transformar a realidade por meio da ciência e da inovação; e
  • Responsabilidade planetária: compreensão de que nossas decisões atravessam fronteiras, ecossistemas e gerações.

Nenhuma dessas dimensões funciona sozinha.

Razão sem ética pode produzir eficiência desumana. Ética sem instituições pode transformar-se apenas em intenção. Instituições sem pensamento crítico podem tornar-se burocracias vazias. Tecnologia sem governança pode concentrar poder. E consciência planetária sem capacidade técnica pode permanecer apenas como ideal.

Os próximos 100 anos já começaram

Não sabemos como será o mundo em 2126. Mas sabemos que muitas das estruturas que existirão naquele mundo começarão a ser pesquisadas, financiadas, reguladas e construídas nas próximas décadas.

É por isso que Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação não podem ser tratados apenas como instrumentos para resolver problemas imediatos. Também são mecanismos para construir futuros possíveis.

Na atuação do Centro de Tecnologia e Inovação da Cannabis (CTICANN), essa visão ajuda a orientar o interesse por tecnologias de longo prazo ligadas à saúde, biotecnologia, agricultura, bioeconomia e novos materiais. Não se trata apenas de acompanhar mercados existentes, mas de compreender quais conhecimentos e capacidades poderão transformar sociedades.

Talvez, a grande pergunta do nosso século não seja até onde a tecnologia poderá nos levar. Será outra: teremos maturidade filosófica, ética e institucional para acompanhar o poder científico e tecnológico que estamos construindo?

A Grécia ainda pode nos ensinar a pensar. A tradição humanista ainda pode nos lembrar do valor da pessoa. Roma ainda pode nos ensinar sobre instituições. A tecnociência nos dará novas capacidades. E caberá à nossa geração decidir o que fazer com elas.

Os próximos 100 anos já começaram.

* Thiago Ermano Jorge é Diretor-Presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Cannabis e Cânhamo (ABICANN), CEO da Rede Centro de Tecnologia e Inovação da Cannabis (CTICANN) e Vice-Presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Psicoativas (IBCPA), atuando também na integração e articulação do IBCPA Inova, Agência de Inovação do IBCPA. Sua atuação está concentrada na convergência entre ciência, tecnologia, inovação, bioeconomia e regulação, com foco em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), Cannabis Medicinal, Cânhamo Industrial e construção de ecossistemas de inovação.

Currículo Lattes disponível: http://lattes.cnpq.br/1235220849862794

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Acesse nossos estudos para mais detalhes:

📘 Relatório Técnico Global sobre Pesquisa e Inovação com o Cânhamo Industrial (CTICANN)
🌍 Análise Sistemática Global sobre Produção Científica da Cannabis (CTICANN)