
Por Thiago Ermano Jorge *
Sem espaços de coordenação, as instituições desperdiçam a atenção, a disponibilidade e o conhecimento de profissionais, que poderiam transformar ideias em execução.
Inovadores não esperam. Não necessariamente porque sejam impacientes, mas porque ideias, relações, tecnologias e oportunidades permanecem em movimento. Enquanto algumas instituições acadêmicas tratam a disponibilidade de profissionais especializados como um recurso permanente, esses profissionais continuam pesquisando, formando redes, estruturando projetos e construindo outros caminhos.
Vivemos em uma economia marcada pela escassez de atenção. Ser ouvido, hoje, já representa uma conquista. Mobilizar alguém qualificado para analisar uma proposta, participar de uma reunião, envolver sua equipe e considerar uma cooperação exige ainda mais: reputação, confiança, interesse e disponibilidade.
Por isso, conquistar a atenção de uma pessoa não é suficiente. É necessário possuir capacidade institucional para sustentar sua presença e transformar essa disponibilidade em execução.
Quando uma equipe especializada se coloca à disposição de uma universidade, empresa ou órgão público, ela não oferece apenas algumas horas de reunião. Coloca temporariamente em circulação conhecimento acumulado, capacidade de articulação, redes de relacionamento, experiência técnica, credibilidade institucional e energia de realização.
Essa oferta possui valor e prazo.
Profissionais especializados não permanecem indefinidamente no mesmo ponto, aguardando que uma organização decida se pretende ou não avançar. Mesmo quando continuam interessados, suas agendas mudam, novas responsabilidades surgem, outras cooperações são formadas e as condições iniciais da oportunidade podem deixar de existir.
Há, evidentemente, uma diferença entre respeitar o tempo necessário para uma decisão e aceitar a ausência indefinida de decisão. Prudência exige análise, critérios e responsabilidade. A demora improdutiva, por outro lado, geralmente revela indefinição de papéis, ausência de governança ou incapacidade de coordenar os recursos já disponíveis.
O simples passar dos meses não produz pensamento de melhor qualidade. Pensamento qualificado nasce de perguntas consistentes, interlocutores preparados, informações suficientes, contrapontos honestos e responsabilidade para decidir.
É justamente nesse ponto que precisamos de espaços de coordenação.
Muitas instituições possuem pesquisadores, laboratórios, conhecimento, autoridade acadêmica e oportunidades de cooperação. Entretanto, esses elementos frequentemente permanecem dispersos. O pesquisador não encontra o decisor. O decisor não encontra o instrumento jurídico. O parceiro externo não encontra um responsável. A oportunidade não encontra um cronograma.
A ausência de coordenação transforma abundância de conhecimento em escassez de realização.
Criar espaços de coordenação significa definir quem conduz, quem decide, quais são os próximos passos, quais obstáculos precisam ser removidos e em que prazo uma resposta será apresentada. Não se trata de exigir decisões precipitadas, mas de reconhecer que o tempo das outras pessoas também integra o patrimônio do projeto.
Precisamos de boa vontade no espaço-tempo porque, sem ela, não nos encontramos verdadeiramente. Podemos participar das mesmas reuniões, concordar com os mesmos objetivos e compartilhar discursos sobre inovação, mas o encontro institucional somente acontece quando alguém assume a responsabilidade de coordenar o próximo passo.
Respeitar o tempo de quem se coloca à disposição não é apenas uma demonstração de educação. É um indicador de governança, maturidade e capacidade de inovação.
Inovar também significa reconhecer quando pessoas, conhecimentos e oportunidades estão diante de nós – e agir antes que deixem de estar.
* Thiago Ermano Jorge é Presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Cannabis e Cânhamo (ABICANN) e Diretor e Pesquisador Interdisciplinar do Centro de Tecnologia e Inovação da Cannabis (CTICANN), com vínculo ao Instituto Brasileiro de Ciências Psicoativas (IBCPA). Atua na integração entre ciência, tecnologia e bioeconomia, com foco em Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial.
Currículo Lattes disponível: http://lattes.cnpq.br/1235220849862794
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