
Por Thiago Ermano Jorge *
O debate sobre a formação de mestres e doutores no Brasil frequentemente parte de uma premissa equivocada: a de que o país estaria formando pesquisadores em excesso. Os dados oficiais do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) indicam o contrário. A densidade de doutores por habitante no Brasil permanece baixa quando comparada à rede de países que estruturaram economias baseadas em ciência, tecnologia e inovação.
O principal desafio, portanto, não é quantitativo, mas institucional. O país ainda não construiu, em escala suficiente, ambientes capazes de absorver mestres e doutores em atividades de pesquisa aplicada, inovação e desenvolvimento produtivo.
Os dados do CGEE mostram que a inserção profissional desses pesquisadores segue fortemente concentrada em poucos setores. A pesquisa revela um ranking das atividades econômicas que mais empregam doutores e evidencia diferenças importantes entre os tipos de organização.
Na iniciativa privada, 56% dos doutores atuam em atividades ligadas à educação, enquanto, nas empresas estatais, 43% estão concentrados em atividades de pesquisa e desenvolvimento científico. Esses números revelam que a absorção em funções diretamente voltadas à inovação produtiva ainda é limitada, especialmente no setor empresarial privado.
Essa concentração ajuda a explicar por que parte relevante da capacidade científica nacional permanece pouco conectada à geração de valor econômico. A expansão da pós-graduação não foi acompanhada por políticas públicas dos governos dos últimos anos, incapazes de articular universidades, empresas, financiamento e estratégias industriais de longo prazo.
Experiências internacionais mostram que países que avançaram em produtividade e sofisticação econômica investiram deliberadamente em ambientes intermediários, como estruturas que conectam ciência, setor produtivo e Estado. Esses ambientes permitem transformar conhecimento em tecnologias, processos industriais, soluções ambientais e inovação aplicada, com governança e continuidade.
É nesse contexto que, por exemplo, no setor da Cannabis sativa e variedades como o Cânhamo Industrial e no campo das biotecnologias se insere a atuação do Centro de Tecnologia e Inovação da Cannabis (CTICANN), em articulação com a Associação Brasileira das Indústrias de Cannabis e Cânhamo (ABICANN) e com o Instituto Brasileiro de Ciências Psicoativas (IBCPA).
O ecossistema AMPERCIAS, como foi batizado em lançamento recentemente, atua desde 2017 para estruturar projetos de pesquisa aplicada e inovação, conectando universidades, mestres, doutores, empreendedores, investidores e gestores públicos.
A proposta é criar condições institucionais para que pesquisadores atuem além do espaço acadêmico, contribuindo para áreas estratégicas como saúde humana e animal, produção agrícola e industrial sustentável, bioeconomia, inovação ambiental e recuperação de ecossistemas. Trata-se de uma lógica de longo prazo, baseada em cooperação, governança e previsibilidade. Governos e instituições poderiam seguir esse modelo, tendo boa vontade.
Por fim, os dados do CGEE são claros: o Brasil não precisa formar menos doutores, mas sim construir políticas públicas e ambientes institucionais capazes de integrá-los às estratégias de desenvolvimento econômico e social. Transformar conhecimento em valor exige coordenação, visão e compromisso com a ciência como eixo estruturante do futuro do País.
* Thiago Ermano Jorge é Presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Cannabis e Cânhamo (ABICANN) e Diretor e Pesquisador Interdisciplinar do Centro de Tecnologia e Inovação da Cannabis (CTICANN), com vínculo ao Instituto Brasileiro de Ciências Psicoativas (IBCPA). Atua na integração entre ciência, tecnologia e bioeconomia, com foco em Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial.
Currículo Lattes disponível: http://lattes.cnpq.br/1235220849862794
Acesse nossos estudos para mais detalhes:
📘 Relatório Técnico Global sobre Pesquisa e Inovação com o Cânhamo Industrial (CTICANN)
🌍 Análise Sistemática Global sobre Produção Científica da Cannabis (CTICANN)

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